Entrevista — Primitive Death Interview — Primitive Death
1. Quais foram as principais influências musicais e ideológicas que levaram vocês a formar a banda?
Primitive Death: Salve, Paranóia Urbana! Agradecemos muito o convite para este bate papo.
Primitive Death surgiu em Brasília/DF, em algum momento de 2023. A versão curta da história é que cinco amigos – que já se conheciam de outros anos, outras bandas e projetos – se organizaram para, finalmente, tocar juntos e desenvolver algo mais na linha do crust e do hardcore.
Musicalmente, as experiências de cada um variam bastante: do crust punk cru ao stenchcore, passando por metal extremo, metal tradicional e punk tradicional. Alguns dos integrantes já tinham se cruzado em outras bandas, mas essa seria a primeira vez que os cinco se reuniriam de vez. A sonoridade acabou sendo executada através do d-beat tradicional, porém com doses cavalares de distorção sueca, death metal e hardcore.
Ideologicamente, nos encontramos no total antifascismo e na necessidade de tornar o ambiente “underground” atual mais politizado e consciente. Ao mesmo tempo, isso nos levou para uma análise epistemológica da própria “cena” e como o construto dessa comunidade se encontra completamente contaminado por hipocrisia e falta de consciência/interpretação histórica.
Existem várias leituras de extrema esquerda dentro de Primitive Death, mas os elementos que nos unem, em termos de ideologia, são: a aversão às ferramentas de domínio do grande capital; a influência nefasta do cristianismo enquanto mecanismo de sustentação dos (etno)genocídios, televisionados ou não; e a languidez mórbida que acomete a música subversiva em tempos de pós-verdade líquida.
2. Como vocês enxergam a relação entre o crust punk e as questões sociais e políticas atuais?
Primitive Death: compreendemos a imensidão de abordagens que a música, e o próprio crust, possibilitam a quem se atreve a produzi-la. Existem inúmeros subgêneros da música pesada – seja ela metal ou punk, por exemplo – que possuem uma liberdade mais intrínseca de lidar com certos assuntos.
Em termos de políticaS - principalmente em leituras anarquistas, esquerdo-extremistas e decoloniais – o (crust) punk parece funcionar como um condutor melhor por dois motivos básicos: 1. Inclinação histórica; 2. Violência sonora.
Desse modo, acreditamos que o “crust punk” não apenas faz parte da construção cultural e musical dos indivíduos “desajustados” que o abraçam como forma de expressão (política, sonora, existencial), mas pode, também, ser considerado um grito agressivo e dicotômico de que “algo ali não está certo”, ao mesmo tempo que abraça o “errado/antagônico” enquanto forma de resistência dura.
Ficamos felizes de continuar vendo cada vez mais bandas e indivíduos que utilizam o “crust punk” como ferramenta de contestação e conscientização. Cada experiência nossa com essa galera, cada convite pra fortalecer uma feira artística, um ambiente de debate, uma gig colaborativa, cada um desses espaços é um aprendizado gigantesco pra gente. E esperamos muito que quem nos vê e nos ouça, principalmente jovens, também possam trocar alguma experiência nesse sentido.
3. Qual é a importância da ética DIY (faça você mesmo) no trabalho da banda hoje?
Primitive Death: o “Faça Você Mesmo” tem resumido a existência da banda desde o início. Primeiramente com a formação, que conta com amigos que fazem parte de um convívio muito restrito e pessoal. Todos com experiência na música marginal e em movimentos políticos e artísticos do submundo.
Em termos de produção visual, audiovisual e fonográfica, nós tentamos concentrar tudo na própria banda, já que temos integrantes com o “know-how” artístico e a vontade de fazer a diferença, nesse sentido formativo. Aliás, o nosso primeiro álbum “Sudamérica Terrörfobia” foi inteiramente gravado e produzido apenas com a participação de membros e amigos da banda.
Para além da “vida doméstica”, todas as nossas parcerias – para produção de merchan, lançamentos, artes, bares, convite para shows, bandas aliadas etc. – fazem parte de uma rede de apoio comum que se estende já há alguns anos.
Acreditamos que quando existe um ciclo de produção subterrânea firme, a coisa pode funcionar bem, dentro de um microcosmo ativo, um no qual todos se mantenham e divulguem sua mensagem de forma isonômica e reta.
4. Existe alguma música de vocês que represente melhor a mensagem ou o propósito da banda? Por quê?
Primitive Death: nesse momento, diríamos que “Territorial Leech” seja uma música extremamente atual, bruta, sentimental e importante.
Se trata de um manifesto histórico contra o crime que o “estado de israel” representa sobre o mundo, pós segunda guerra mundial. É sobre não apenas o estupro da Palestina, mas como esses “neofascistas” justificam o vilipêndio através da suposta predileção pregada pelas “religiões abraâmicas”.
É uma música sobre dor, indignação e revolta, porém dá luz à grandiosa resistência do povo palestino e nos alerta para erros históricos que nunca adormeceram, e hoje são literalmente televisionados, enquanto alimentamos nossa languidez e inércia moral.
Sem diminuir nenhuma outra das denúncias contidas no disco, diríamos que essa é a mais urgente e nefasta, globalmente falando.
5. Como vocês veem o futuro da cena crust punk e quais desafios ela enfrenta atualmente?
Primitive Death: com todos os cuidados, para não recairmos em algum tipo de ingenuidade, diríamos que atualmente existem muitas bandas, não apenas aqui no DF, mas em todo o Brasil e no mundo, interessadas em fazer e MOSTRAR sua música/mensagem/revolta.
Os canais de comunicação têm sido utilizados com mais maturidade e assertividade. As próprias bandas e artistas do submundo têm se organizado para promover eventos, feiras, shows, ensaios abertos, mostras de arte etc., tudo no intuito de manter o diálogo e a experiência abertas.
Ao mesmo tempo, essa movimentação angaria e dá voz a levas mais jovens de indivíduos marginalizados (nos seus mais variados sentidos). Então, temos visto um cenário, não apenas crust punk, mas de “aliados desajustados”, muito pujante e ativo.
O desafio reside exatamente aí: por quanto tempo conseguiremos manter essa interação relevante? Quanto tempo até os egos, medos, inseguranças, ganâncias e depressões se tornarem mais importantes do que a camaradagem e tudo ruir aos poucos (como já vimos acontecer)?
Nós não temos essa resposta, mas devagarzinho, por meio da nossa arte, e sempre tentando esquivar da pressa que a urgência do capital nos impõem, estamos focados em deixar a nossa contribuição marcada nos anais da desgraça!
1. What were the main musical and ideological influences that led you to form the band?
Primitive Death: Hail, Paranoia Urbana! We really appreciate the invite for this chat.
Primitive Death was born in Brasília/DF, sometime in 2023. The short version of the story is that five friends — who already knew each other from previous years, other bands, and other projects — got organized to finally play together and develop something closer to crust and hardcore.
Musically, each of us brings a pretty different background: from raw crust punk to stenchcore, through extreme metal, traditional metal, and traditional punk. Some of the members had already crossed paths in other bands, but this would be the first time the five of us came together for good. The sound ended up being carried out through traditional d-beat, but with massive doses of Swedish distortion, death metal, and hardcore.
Ideologically, we find common ground in total antifascism and in the need to make today’s underground more politicized and aware. At the same time, that pushed us toward an epistemological reading of the “scene” itself and how the construct of this community is completely contaminated by hypocrisy and a lack of historical awareness/reading.
There are several far-left readings within Primitive Death, but the elements that unite us, ideologically, are: aversion to the tools of domination wielded by big capital; the harmful influence of Christianity as a mechanism sustaining (ethno)genocides, televised or not; and the morbid languor that afflicts subversive music in times of liquid post-truth.
2. How do you see the relationship between crust punk and today’s social and political issues?
Primitive Death: we understand the sheer range of approaches that music — and crust itself — makes available to whoever dares to make it. There are countless subgenres of heavy music, be it metal or punk, that carry a more intrinsic freedom to deal with certain subjects.
In terms of politics — mainly through anarchist, far-left, and decolonial readings — (crust) punk seems to work as a better conduit for two basic reasons: 1. Historical inclination; 2. Sonic violence.
That way, we believe “crust punk” is not only part of the cultural and musical construction of “misfit” individuals who embrace it as a form of expression (political, sonic, existential), but can also be seen as an aggressive, dichotomous scream that “something there isn’t right,” while at the same time embracing the “wrong/antagonistic” as a form of hard resistance.
We’re happy to keep seeing more and more bands and individuals using “crust punk” as a tool for protest and awareness. Every experience we have with that crowd, every invite to strengthen an art fair, a debate space, a collaborative gig — each of those spaces is a huge learning experience for us. And we really hope that whoever watches and listens to us, especially young people, can also share some experience along these lines.
3. How important is the DIY (do it yourself) ethic to the band’s work today?
Primitive Death: “Do It Yourself” has summed up the band’s existence since the start. First with the lineup itself, made up of friends who share a very close, personal circle. All with experience in underground music and in the political and artistic movements of the underworld.
In terms of visual, audiovisual, and phonographic production, we try to keep everything within the band itself, since we have members with the artistic “know-how” and the will to make a difference on that front. In fact, our first album, “Sudamérica Terrörfobia,” was entirely recorded and produced only with the participation of band members and friends.
Beyond “domestic life,” all our partnerships — for merch production, releases, artwork, venues, show invites, allied bands, etc. — are part of a shared support network that has been going for a few years now.
We believe that when there’s a solid underground production cycle, things can work well, within an active microcosm where everyone sustains and spreads their message in an equal, straightforward way.
4. Is there a song of yours that best represents the band’s message or purpose? Why?
Primitive Death: right now, we’d say “Territorial Leech” is an extremely current, raw, emotional, and important song.
It’s a historical manifesto against the crime that the “state of israel” represents to the world, post-World War II. It’s about not only the rape of Palestine, but how these “neofascists” justify the outrage through the supposed predilection preached by the “Abrahamic religions.”
It’s a song about pain, indignation, and revolt, but it also shines a light on the tremendous resistance of the Palestinian people and warns us about historical mistakes that never really went away, and are today literally televised, while we feed our own languor and moral inertia.
Without downplaying any of the other denunciations on the album, we’d say this is the most urgent and dire one, globally speaking.
5. How do you see the future of the crust punk scene and what challenges does it currently face?
Primitive Death: being careful not to fall into any kind of naivety, we’d say that right now there are a lot of bands, not just here in DF, but across Brazil and the world, interested in making and SHOWING their music/message/revolt.
Communication channels have been used with more maturity and assertiveness. Underground bands and artists themselves have been organizing to promote events, fairs, shows, open rehearsals, art exhibits, etc., all aiming to keep the dialogue and the experience open.
At the same time, this movement gathers and gives voice to younger waves of marginalized individuals (in their many different senses). So we’ve been seeing a scene — not just crust punk, but of “misfit allies” — that is very vibrant and active.
The challenge lies exactly there: how long can we keep this interaction relevant? How long until egos, fears, insecurities, greed, and depressions become more important than camaraderie, and it all crumbles little by little (as we’ve already seen happen)?
We don’t have that answer, but slowly, through our art, and always trying to dodge the rush that capital’s urgency imposes on us, we’re focused on leaving our mark on the annals of disgrace!